Stock Car é destaque na Revista Época.  
   
   
 

Adrenalina e Lucros.

A Stock Car atrai multidões, vira vitrine de grandes empresas e gira mais de R$ 100 milhoes por ano.

Texto: João Sorima Neto

Fotos: Ormuzd Alves

 

Nas arquibancadas de Interlagos, 30 mil pessoas vibram. Na pista, engenheiros e mecânicos fazem os últimos ajustes nos carros, que vão atingir a velocidade de 250 quilômetros por hora. Os 36 pilotos se concentram - este, afinal, é um dos maiores grids de largada do mundo. Dezenas de câmeras de TV se posicionam.  Os motores roncam mais forte. A luz verde acende: vai começar mais uma etapa da Stock Car, a categoria de turismo do automobilismo brasileiro que já se destaca como uma das cinco mais importantes do planeta.

 

Todo esse circo é uma novidade no Brasil. Há uma década, a Stock Car não passava de um esporte quase amador, só acompanhado por uma turma de torcedores fanáticos. Automobilismo, por aqui, era sinônimo exclusivo de Fórmula 1. Isso mudou e hoje a Stock é um esporte de massa: só neste ano 337 mil pessoas assistiram às 12 corridas realizadas em sete Estados do país. Na televisão, a audiência chegou a 10 milhões de espectadores por prova. Com tanto público, a categoria virou uma vitrine privilegiada, cada vez mais disputada por grandes empresas.

 

A temporada de 2004 bateu diversos recordes. Calcula-se que, entre patrocínios, direitos de transmissão na TV e impacto econômico nas cidades onde as corridas são organizadas, tenham sido movimentados R$ 100 milhões. Isso significa um crescimento de 30% em relação a temporada passada e deve se repetir em 2005. A Stock Car é uma das categorias que mais crescem no mundo em público e faturamento. No Brasil, pelo menos 120 empresas brigaram para ter sua marca ligada a ela. São gigantes como Nokia, Petrobrás, Texaco, Laboratórios Medley, Philips, Pirelli disputando cada centímetro da carroceria dos carros e do macacão dos pilotos. Na década de 80, meia dúzia de empresas se aventuravam a se associar a ela. "A Stock Car virou exemplo de tecnologia, competitividade, profissionalismo. Por isso há tanto interesse", diz Carlos Col, presidente da Vicar, empresa que organiza o campeonato.

 

E a briga por espaço na Stock Car promete esquentar ainda mais no próximo ano. Até agora, apenas a GM colocava seus carros para rodar nas pistas. Em 2005, mais duas montadoras vão entrar na disputa - só não está certo ainda quais serão. Nos boxes, dá-se como certa a chegada da Mitsubishi. A empresa confirma que estuda a proposta, mas não bateu o martelo ainda. A Renault está cotada para rodar nos circuitos, e a Toyota também foi convidada. Em 2006, vai ser aberto espaço para uma quarta marca competidora. "Se a Stock Car já fosse multimarcas, teria ficado entre as três provas mais importantes do mundo em sua categoria", diz Fernando Parra, presidente da Associação Brasileira de Pilotos e Equipes e chefe da equipe Katalogo Racing.

 

Atualmente, a Stock está entre as cinco melhores do planeta na divisão turismo, segundo o ranking da inglesa Autosport, uma das mais respeitadas publicações sobre automobilismo. A revista analisou ítens como competitividade, qualidade dos carros, organização do campeonato e número de marcas. "Para nós, a concorrência será bem vinda. Afinal, há 25 anos só os carros da General Motors cruzam a linha de chegada em primeiro", brinca Jorge Mejia, direto de marketing da GM. Hoje, a carroceria dos carros é inspirada no Astra. "Com novas marcas, a competitividade nas provas deve aumentar, assim como o interesse do público", aposta Col.

 

A popularização da Stock Car provocou um revolução na vida dos pilotos. Quando a categoria nasceu, em 1979, eles arriscavam a vida nas pistas dirigindo um Opalão, com 270 cavalos de potência. Era um carro de linha com motor envenenado e carroceria adaptada para as corridas. A velocidade máxima chegava a 178 quilômetros por hora. "A competitividade dos carros atuais não se compara nem em sonho aos veículos do passado", diz Ingo Hoffmann, que participa da Stock Car desde a primeira temporada e é dono de 12 títulos.

 

No início, correr era apenas um hobby para empresários no fim de semana, e salário coisa para poucos pilotos. Hoje, os empresários continuam interessados na Stock, mas o hobby virou negócio. A maioria dos pilotos é profissional. Os que atuam em equipes de ponta chegam a ganhar R$ 100 mil num mês, entre salários, cachês por uso de imagem e participação em eventos. São tratados como artistas de TV. "Damos autógrafo nas ruas, em aeroportos", diz David Muffato, de 33 anos, que neste ano atuou na equipe Repsol Boettger e é dono da rede de supermercados Muffato, do Paraná.

 

O salto da Stock Car para o profissionalismo aconteceu no ano 2000. Um grupo de aficcionados do esporte decidiu transformá-lo num projeto lucrativo. O primeiro passo foi colocar mais adrenalina na disputa. Os carros de linha acabaram abandonados e os motores envenenados aposentados. Foram importados motores V8 de competição importados dos Estados Unidos com 450 cavalos de potência. São os mesmo utilizados pela Nascar, a categoria que tem 150 milhões de admiradores nos EUA e movimenta US$ 4 bilhões por ano. "Com motores iguais, as vezes há 20 carros separados  por apenas um segundo", diz o piloto Paulo Gomes, da Katalogo Racing e um veterano das pistas.

 

Ter nomes importantes do automobilismo como Chico Serra, Raul Boesel e Ingo Hoffmann atuando na categoria também ajudou a atrair os patrocinadores e a transmissão da TV Globo foi fundamental para popularizar as corridas. As equipes, que antigamente eram compostas de piloto e dois mecânicos, cresceram nessa onda e também se organizaram como empresas. As maiores chegam a ter 25 funcionários, entre engenheiros, mecânicos, pintores, motoristas, alem de infra-estrutura para transportar os carros pelo país com carretas. Esse arranjo hoje é bem mais caro. Para manter dois carros brigando pelo título na competição, as equipes gastam no mínimo R$ 3 milhoes num ano. "Não há mais espaço para amadorismo", diz o piloto Raul Boesel.

 

Quem nunca foi a uma dessas corridas vai se impressionar. As arquibancadas estão sempre lotadas, em média com um público quatro vezes maior que o de uma partida do Campeonato Brasileiro de Futebol. As empresas patrocinadoras investem em camarotes. Na última prova, em Interlagos, São Paulo, havia 50 espalhados pelo autódromo - só o da Nokia tinha capacidade para 800 convidados, entre fornecedores e clientes. "Atingimos o público que nos interessa e até fechamos negócios aqui", diz o vice-presidente da Nokia, Claudio Raupp. Os convidados podem visitar os boxes e tirar fotos com os pilotos. Calcula-se que o investimento de grandes empresas nessas salas VIP, além do apoio às equipes, chegue a R$ 5 milhões num ano.

 

O campeonato brasileiro de Stock Car cresceu tanto que começou a se globalizar. Em 2005, a categoria ganha sua primeira prova internacional. Como há um piloto argentino na disputa, uma prova será realizada em Buenos Aires.